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Admoestações de Ipuur no Mundo contemporâneo


por Daniel Lança Perdigão, Fev.2025

Estilo inspirado no Papiro Ipuur (ou Papiro Leiden) escrito na XIX dinastia (1250 a.C.)


Não é o meu estilo habitual nem sequer um dos temas que aborde normalmente, mas... decidi fazer esta experiência e partilhá-la convosco, muito por culpa do que se tem passado no Mundo e do que gostaria que a Europa continue a ser.


Imagem pelo autor, usando Midjourney
Imagem pelo autor, usando Midjourney

O Mundo de cabeça para baixo

O Mundo está de cabeça para baixo. Aquilo que antes era ordem agora é desordem, e a justiça jaz abandonada. Os humildes clamam no vazio enquanto os arrogantes se banqueteiam. Os valores inverteram-se: os tolos são ouvidos como sábios, e os sábios são tratados como tolos. Em cada canto, ouvem-se lamúrias de um tempo caótico que corrói a esperança.


Meridiana, o continente do sul em tormento

Nas terras de Meridiana, o antigo continente do sul, impera a confusão. Os campos outrora férteis estão manchados de sangue fraterno; irmão volta-se contra irmão em fúria cega. As cidades erguidas sob o sol tropical agora tremem diante de governantes corruptos e promessas vazias. O clamor do povo ecoa nas montanhas e vales – gritos de fome e de revolta, mas os seus ecos não encontram resposta. A terra das florestas e rios abundantes chora lágrimas de fogo e cinzas, enquanto aqueles que deveriam protegê-la a dilaceram sem piedade.


Imagem pelo autor, usando Midjourney
Imagem pelo autor, usando Midjourney

Guerras e ruínas no Oriente

No longínquo Oriente, sob o mesmo céu que já viu nascer grandes civilizações, hoje só se antevê guerra e ruína. Cidades milenares serão reduzidas a pó, os seus templos profanados e os seus tesouros perdidos nas areias. O choro das mães ecoará entre ruínas onde antes crianças brincavam. Reis e líderes poderosos travam batalhas intermináveis, e o sangue dos inocentes correrá como rios pelas planícies ardentes. Não haverá amanhecer de paz nas terras do leste – somente a prolongada noite do desespero que insistirá em não ter fim.


Fome e desesperança em África

Em solo africano, berço da humanidade, a tragédia também se espalha. A fome caminha de mãos dadas com a peste em aldeias esquecidas, ceifando vidas sob o olhar indiferente do mundo. Povos antigos, herdeiros de reinos ancestrais, agonizam entre a seca inclemente e conflitos fratricidas. Os campos secam e os gados definham, enquanto crianças choram por um pedaço de pão. A terra dos faraós e dos guerreiros malinke clama por socorro, mas a sua voz é apenas um sussurro no vendaval do caos global.


Europa: centro da civilização e da paz

Entretanto, no coração do Velho Mundo, ergue-se a Europa como um farol de relativa calmaria. As nações da Europa, cansadas de séculos de guerras fratricidas, hoje procuram a concórdia e erguem a bandeira da paz. As suas cidades florescem onde antes havia cinzas, e antigos inimigos agora dividem o pão e o diálogo. Em bibliotecas e universidades, o conhecimento é cultivado enquanto noutras partes reina a confusão. A Europa faz as vezes de centro da civilização nos tempos atuais – um bastião de ordem e razão cercado pelas trevas circundantes, guardiã frágil de uma paz conquistada a alto custo. Ainda que os seus campos tenham sido campos de batalha num passado não tão distante, agora abrigam tratados e alianças que mantêm acesa a chama da esperança.


Imagem pelo autor, usando Midjourney
Imagem pelo autor, usando Midjourney

Chamada à reflexão e à ação

Ó, humanidade, diante de tais clamores, não permaneças indiferente! Os lamentos de Ipuur atravessam os séculos para ressoar nos nossos dias, conclamando-nos a acordar do sono da apatia. É tempo de reflexão sobre os caminhos que nos trouxeram a este abismo: cada injustiça tolerada, cada corrupção ignorada, cada mão estendida não atendida. Que cada um reflita no seu íntimo e reconheça a parte que lhe cabe na desordem presente.

Mas a reflexão por si só não basta – é preciso ação antes que seja tarde. Ergamo-nos como guardiões da justiça e da compaixão. Que os poderosos ajam com sabedoria e os povos com unidade, para que se restaurem a ordem e a dignidade perdidas. Não podemos mais aceitar que o caos seja o senhor do destino humano. Que das cinzas deste mundo em crise renasça a luz de um novo amanhecer.


Em tom épico e lamentoso, brada a voz antiga de Ipuur: que os nossos olhos se abram e as nossas mãos trabalhem, pois somente assim o lamento dará lugar à esperança, e o mundo deixará de estar de cabeça para baixo.

 
 
 

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